A delação premiada é ética? É justa? Quando ponho-me a pensar sobre
esta nova ferramenta à disposição da justiça, logo vem a mente um
sombrio personagem bíblico: Judas Iscariótes, que delatou seu mestre,
Jesus, em troca de 30 moedas, e ninguém haverá de dizer que Judas é um
exemplo a ser seguido pela justiça dos homens.
Poucas atitudes nos causam mais revolta do que aquela em que alguém, em
troca de vantagens pessoais, joga seus companheiros na fogueira, ou na
cruz.
Sob qualquer ótica que se examine, o delator é sempre um dedo-duro, um
pária. Mesmo assim, a moderna delação premiada é justificável, se
corretamente empregada, pois quebra a falsa "ética do crime", que se
resume numa lealdade quase irracional entre bandidos.
Essa lealdade ética - sem qualquer ética - é baseada no medo e não na
virtude. Criminosos não delatam por possuírem valores como amizade ou
sólido companheirismo e sim por medo de consequências que podem chegar à
morte. Nesse quadro, reina a "delação premiada", conseguindo dissolver
essa ética do crime por meio da oferta do "menos pior".
Se o Corrupto "leal" só e leal porque tem medo, nada mais ético do que
leva-lo a cooperar com a justiça por meio de uma motivação tão mesquinha
quanto o medo: o interesse de ter a pena abrandada.
Apenas temos que ter o bom senso de não compararmos os atuais delatores a Judas Iscariotes. Digo isso por dois bons motivos: Primeiro porque a delação de Judas foi feita as
tropas Romanas, invasoras, estrangeiras e opressoras de Jerusalém, o
que não é o atual caso. O segundo motivo é o nome do Delatado. Os
acusados pela Lava-Jato, podem ser corruptos, bandidos ou apenas
suspeitos, mas não são iguais a Jesus Cristo.

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