sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Brasil, faroeste caboclo.


          Num dia falta água, no outro falta luz, já dizia a marchinha de carnaval "vaga-lume" de 1954. 
         Se fosse hoje, retrataria uma realidade bem mais atual, tenebrosa e complexa. Num dia falta água. No outro falta luz.  No terceiro surge um novo escândalo da Petrobras. No quarto as manchetes se voltam para a crise econômica. No quinto, fala-se da crise política, em que o executivo e o congresso não se entendem. No sexto, as redes sociais pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 
        No sétimo - bem, no sétimo é melhor descansar, pois tanta confusão não cabe em uma única marchinha. Está mais para um rock´n´roll de letra interminável, como o "faroeste caboclo" de Renato Russo.

domingo, 16 de agosto de 2015

Brasil - Retalhos do dia a dia - 2

Brasil - Retalhos do dia a dia - 2
Coletânea de observações do nosso cotidiano político.

            O transatlântico Brasil segue lentamente em alto mar. Tem problemas crônicos na casa de máquinas. A capitã e sua tripulação tomam as providências: Reúnem-se para discutir a faxina no convés e a arrumação dos móveis no salão de jogos. A esquizofrenia do transatlântico chegou a um ponto quase folclórico. Nem se pode mais dizer que os problemas cruciais do país permanecem intocados por causa do conflito de interesses. Não é mais o falso debate sobre privatizações,ou tirar esta ou aquela classe do nível A para B, em que um lado fica querendo parecer mais brasileiro do que o outro empunhando falsos dogmas de patriotismo. Agora é pior, já que oposição e situação não mais se diferenciam, a paralisia está no consenso.

        Por debaixo dos panos, governo e oposição estão caminhando para a costura de um acordo que acaba com o tema impeachment. Um movimento gigantesco, uma mobilização descomunal de energia e tempo para mudar a mudança, para jogar fora a arte final e consagrar o rascunho – que depois de amanhã alguém provavelmente descobrirá que não serve (tanto que já não servia) e partirá para rasurar a rasura.

       Não importa discutir se é o ideal ou não que os presidentes, governadores e prefeitos possam criar acordos e regras em seus mandatos. O que importa é que o Brasil não é confiável para criar regras, porque não se acostuma a respeitá-las. Talvez o impeachment, como sonha utopicamente a imensa massa de brasileiros descontentes, seja mais problema que solução. Ou talvez seja o contrário. Quem pode afirmar categoricamente? A única certeza inquestionável é que, se o Brasil tem problemas na casa de máquinas, esse definitivamente não é o tema que vai destravá-lo, que mereça a prioridade um acordo nacional em torno do: "O que fazer se...".

       É impressionante que um governo, um congresso, enfim, as instituições políticas de um país com tudo por fazer estejam mobilizadas para rasurar mais uma vez uma regra que, na perspectiva do tempo histórico, acaba de ser mexida, e que tem muito pouco a ver com o bom funcionamento da casa de máquinas, do país real.
      O impeachment pode ser bom, porque a continuidade da atual administração é um prenúncio de dias negros. Se há imperfeições na forma como tem sido processado, que se busque as correções de rumo. É preciso livrar-se de uma vez por todas dessa síndrome adolescente de que avançar é criar regras novas a cada nascer do sol.

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sábado, 15 de agosto de 2015

Brasil - Retalhos do dia a dia.

Retalhos do dia a dia.
Coletânea de observações obtidas a partir do nosso cotidiano.

      Causou-me espanto ler num jornal da capital gaúcha uma observação sobre as ferramentas utilizadas pelos deputados e senadores brasileiros em seu estafante "trabalho":  
-1º) Tablet pessoal. A grande maioria revela sem o menor pudor, não saber usar e nem ter interesse em aprender. 
-2º) Notebook. O senador entrevistado revela que tem vários "rolando" pelos gabinetes e que as vezes tem dificuldade de localizar o seu. 
-3º) Telefones celulares. A média dos parlamentares possuem três, para (dizem) melhor exercer o seu ofício, e em média são 60 a 120 por gabinete. Isso tudo generosamente pago pelo contribuinte, ou seja você, eu, o taxista, o padeiro etc... sem contar que  devido ao "acúmulo" de trabalho nos quase 3 dias passados no congresso, sempre pode sair uma soneca afinal ninguém é de ferro.
          Agora vejamos as ferramentas utilizadas pela maioria dos professores públicos brasileiros: - Giz e Quadro-negro, quase sempre em péssimas condições assim como as escolas em que ensinam. E nas campanhas políticas pregam em alta voz ser a educação a prioridade para o desenvolvimento do país.
           Em outra parte do Brasil, jornal local estampa na coluna policial matéria em que a irmã de uma vítima de assalto, ligou para a polícia relatando o fato recém ocorrido, e teve como resposta de uma atendente que não era possível fazer nenhum atendimento ou mesmo ir ao local por estarem sem viaturas. Como? O que? Em uma cidade de quase 400.000 habitantes não ter viatura? Como um país, dito "emergente", saindo do terceiro mundo, que não tem dinheiro sequer para comprar viaturas policiais, quer sediar uma copa do mundo? Fica aí a pergunta!
         Apenas por curiosidade, fico pensando se nossos líderes tanto no legislativo, executivo ou judiciário não estão exagerando nas sucessivas propostas de aumentos exponenciais de seus já vultosos salários, incrivelmente maiores do que a receita da grande massa, que no final das contas é quem realmente trabalha e produz nesse país, para que eles brinquem de autoridades e recebam os louros do poder. 
         Gostaria de ver um, apenas um, dos nossos mandatários seguir o exemplo de Deng Xiao Ping, que se destituiu de todo salário, e de todas as regalias e honrarias ao assumir uma China caótica e atrasada e graças ao seu governo é hoje a potência comercial e financeira mais respeitada no mundo. Gostaria, mas como não posso esperar sentado vou juntar-me a vocês, que diferentemente deles temos que trabalhar.

Texto: AnalfaBlog
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

PT - Um partido e suas contradições.

        O PT é, de longe, o maior caso de sucesso na história partidária brasileira permanecendo por 16 anos a frente do governo federal, considerando que a atual presidente consiga encerrar seu mandato.
        Sucesso que deriva em primeiro lugar, de seus próprios méritos, por ser uma sigla com a mais aguerrida militância e um líder cujo senso estratégico e carisma não encontra igual na política brasileira. Em segundo lugar, pura sorte.
       O partido governou o país na época de ouro das matérias primas exportáveis e navegou na esteira da bem sucedida estabilização econômica dos anos 90, conquistas herdadas do governo FHC que o precedeu.
    Hoje a economia parou, a miséria voltou a crescer, a corrupção não sai das manchetes e nossa maior empresa pública está na lona. Para qualquer partido, seria o fim. Não para o PT.
    A frase mais ouvida, por esses dias, é que o partido deve "voltar as origens". Volta e meia, esse discurso aparece. Lula faz cara de sério, restringe, o que faz de melhor suas aparições públicas.
    O PT é um caso inédito, em nossa história, de resiliência política. Protagonista, em sequencia de dois casos espetaculares de corrupção "sistêmica", envolvendo ícones da vida brasileira, como a Petrobras, o partido não se abala. Não reconhece seus delitos, ganha as eleições, não perde parlamentares, transforma apenados em heróis.
    Seus militantes, alguns já bem grisalhos, continuam firmes, mandando ver nas redes sociais. O sujeito elogia os irmãos Castro e continua certo de ser um democrata.
    Estão tão à margem da moderna sociedade envolvidos por seu arsenal de ideologias (algumas com mais de 150 anos) que há pouco vi uma entrevista com um petista do alto escalão, o qual por mais de uma vez se referiu ao genocida ditador Kim Jong-un, como um "líder moderno".
    A corrupção da esquerda é sempre política e não "pessoal". Por isso o sujeito pode ir para o xadrez, em um camburão da polícia federal, não sem antes erguer o braço, punho cerrado. E a imagem depois vira peça de campanha do partido.
    Revolucionário sem revolução, socialista sem socialismo, o PT aprendeu desde cedo a não levar muito a sério o que afirmava em seus documentos.
    Nos anos 90, os ventos da modernização econômica e da reforma do Estado sopraram mais forte e chegaram ao Brasil. O PT reagiu atirando, foi contra o Plano Real e a privatização de  empresas como a Embraer, Vale e CSN. Tremo em pensar no que teria ocorrido a todas essas empresas caso permanecessem até hoje nas mãos do governo.
    É interessante como um partido "nascido na sociedade" tenha se tornado porta-voz de uma ideologia de estado. sua pedra de toque filosofal é a permanente confusão entre o "público" e o "estatal".
    O militante típico dessa visão entoa slogans a favor da "educação  pública e gratuita". Quando você vai ver o que ele quer dizer, descobre que é só a defesa do modelo estatal de ensino e a agenda dos sindicatos da educação no setor público. A mesmíssima agenda que colocou nossos alunos no 58º lugar na última edição Pisa entre 65 países avaliados.
    No caso da saúde, o mesmo eufemismo. O militante defende "saúde pública e gratuita", mas basta raspar um pouco da tinta ideológica para descobrir que ele fala do sistema tradicional de hospitais estatais. O modelo não funciona, as filas estão cheias, os indicadores de atendimento são pífios, mas não dá nada. A classe média se protege com planos de saúde privados e colégios particulares, o governo utiliza planos de saúde privados e hospitais particulares como Sírio libanês e Albert Einstein para seus membros, sobrando aos mais pobres, que não tem escolha, o estado e suas promessas mirabolantes somadas a justificativas nem sempre "justificáveis..
    O surpreendente é que um partido que mesmo com seus dois últimos tesoureiros na cadeia por corrupção consiga eleger uma presidente da república, ao mesmo tempo não consiga entender um mundo globalizado e insista em  manter-se à margem do que poderia ser a última boia salva-vidas no oceano político.

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Dilma Rousseff - A semelhança não é mera coincidência.

         
       Um país politicamente tenso. Parlamentares divididos entre o apoio incondicional e a revolta latente contra um governo que muitos consideram populista, corrupto, espúrio e incapaz de manter as conquistas recentes da nação. 
      Um governante que perde a popularidade entre os mais pobres, enquanto é sustentado pelos mais ricos que dele dependem. Uma população volúvel, cuja opinião flutua ao sabor do discurso do orador mais sedutor. Uma liderança despótica, desgastada e isolada no quinto ano de governo, contra quem mesmo antigos apoiadores incondicionais já conspiram nos bastidores. 
          Uma personagem que ouve apenas bajuladores, não tolera má notícia nem contestação, mas ainda resiste, em nome da república, a ceder à última tentação autoritária. Evidente de que país se trata, certo?
Se respondeu Brasil, errou... Trata-se de Roma, março de 44 a.C., últimos dias do governo de Júlio César, de Willian Shakespeare.
         Shakespeare escreveu a peça entre 1598 e 1599 com base em suas leituras dos historiadores romanos Plutarco e Suetônio, e impressiona-nos mesmo na atualidade por revelar a alma humana na sua busca trágica pelo poder a qualquer custo. A tragédia começa com aquele ingrediente indispensável à política: conspiração, tendo como personagens Marco Antônio, Octávio, Cássio e Brutus, e culmina, como todos sabemos com a morte de César.
          Mas o que torna a peça política, assim como as centúrias de Nostradamus, proféticamente atual é o momento em que Cássio, diante do cadáver de César pronuncia alguns dos versos de Shakespeare: /Quantas épocas por vir/Será esta nossa cena de novo encenada/em estados ainda não nascidos e sotaques desconhecidos?/.
        Pouco - se algo - mudou na política desde então. O sucesso de quem ambicionou o poder e hoje o detém, leva a pretensão divina, ao totalitarismo e finalmente à tragédia.
         Isso nos faz voltar ao início do artigo, e, se agora ao relermos o texto substituirmos Roma por um país tupiniquim de codinome Brasil, atualizamos Shakespeare para o século 21 sem prejuízo de conteúdo.  

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Postagem destaque do Mês.

O Brasil que eu tanto quero.

                      É manhã de quase primavera e realmente parece que o dia promete ser lindo, um ímpar presente da natureza para...